Cotas para mulheres na política… Tem que ser para valer!

Todas nós ficamos chocadas ao assistir pela TV aos resultados das urnas, em todo país, com tão poucas candidatas mulheres sendo eleitas, mesmo depois de tantos apelos inclusive do TSE para que a eleitora mulher busque ser melhor representada, quando é absoluta maioria na população e expressiva minoria nas câmaras e assembleias. Mas o choque se deve não à continuidade dessa realidade, e sim, ao “misterioso” número de candidatas a vereadoras nas eleições deste ano que obtiveram “ZERO” voto na apuração.

Incrível que nem mesmo a própria candidata tivesse votado em si própria. Mas isso tem explicação: muitos partidos inscreveram “candidatas laranjas” – aquelas “só para constar” e fechar a conta necessária das cotas estipuladas pela justiça eleitoral! A Dra. Luiza Eluf, nos explica melhor essa triste realidade…

“As eleições municipais desse ano mostraram um eleitorado indignado e revoltado com relação aos políticos e à política.

O problema dos brasileiros é que, como resposta ao descontentamento, sempre escolhem o caminho errado. Deixar de votar não resolve nada e ajuda a perpetuar as falhas que geram tanta insatisfação, permitindo que candidatos inadequados sejam novamente eleitos. Ficou comprovado que a população, de alta ou de baixa renda, reage de forma ineficaz ao próprio descontentamento. E pior do que negar o sufrágio é destilar a raiva clamando pela volta da ditadura militar. Podemos considerar que a ignorância política supera qualquer outro tipo de desconhecimento em nosso país.

politics

Por outro lado, nossos legisladores, ao fazerem uma reforma política açodada no último ano, talvez no intuito de dar uma resposta aos movimentos populares que encheram as ruas das cidades recentemente e que foram responsabilizados pelo sucesso do impeachment, conseguiram criar regras que, aparentemente, se destinavam apenas a manter tudo como dantes. Ou seja: tempo de campanha exíguo e insuficiente para divulgar candidaturas de pessoas ainda não eleitas: propaganda partidária no Rádio e TV, no horário político, totalmente fracionada em várias chamadas dispersas e rápidas, durante o dia todo, de modo a pegar os eleitores no susto sem lhes dar tempo para se concentrar no assunto que estava sendo veiculado. Isso, sem falar no encurtamento do período oficial de campanha.
Por fim, impossível não mencionar o vexame inacreditável imposto às candidaturas femininas em todo o país.

urna-eletronica-eleicoes

Nossa legislação prevê cota obrigatória de 30% para mulheres nas listas dos partidos. Se a cota não é cumprida, o partido é punido. O resultado disso é que 14,5 mil candidatas a vereadora em todo o Brasil não receberam nenhum voto! Zero voto significa que nem elas votaram nelas mesmas. Esse dado foi colhido por um levantamento da TV Globo, em parceria com a agência de dados Gênero e Número e com base em informações do Tribunal Superior Eleitoral. Com relação aos homens, apenas 1.704 tiveram zero voto. Os dados demonstram claramente que um número significativo de candidatas são colocadas no pleito apenas para cumprir a porcentagem prevista em Lei, o que desvirtua completamente a finalidade para a qual as cotas foram criadas.

O mencionado resultado não pode passar em branco. É evidente que a participação das mulheres na política é muito importante para o desenvolvimento social, econômico e político do país. Zombar da Lei dessa maneira merece que uma providência seja tomada. E só há uma medida possível para resolver o problema: as cotas de 30% devem ser instituídas nas Casas Legislativas, a saber, nas Câmaras Municipais, nas Assembléias Legislativas dos Estados, na Câmara Federal e no Senado. As mulheres representam mais da metade da população.

Sabemos que nova reforma político-eleitoral está sendo gestada no Congresso. Discute-se o voto distrital e o voto em lista fechada do partido, dentre outros temas. Seja qual for a próxima novidade, esperamos que venha para o bem do país e não para o bem de quem escreve a Lei. Importante, também, que sejam dadas reais oportunidades para as mulheres, garantindo-lhes não apenas um lugar no rol de candidatos, mas um lugar respeitável no Poder.

mulher-na-politica-1

Desta forma, uma mulher candidata terá chances reais de se eleger, sem a necessidade de escárnio legal e sem risco de exploração moral e cívica da população feminina.”

Luiza Nagib Eluf é Advogada. É Ex-Procuradora de Justiça do Ministério Público de São Paulo, Ex-Secretária Nacional dos Direitos da Cidadania e Ex-Subprefeita da Lapa. É autora de sete livros, dentre os quais “A paixão no banco dos réus”, sobre crimes passionais.

“A política não é atrativa para a mulher. Ela é um espaço machista”, diz Teresa Surita

teresa

Eleita para o quinto mandato com 79,39% dos votos para a prefeitura de Boa Vista (RR), Teresa Surita não mede as palavras na hora de opinar sobre o machismo na política, inclusive dentro do seu próprio partido, o PMDB. A prefeita acredita que é necessária uma mudança radical nos partidos a fim de incentivar as candidaturas femininas.

Única mulher no comando de uma capital, Teresa Surita afirma ser contra cotas para mulheres no Legislativo por achar a medida ineficaz, entretanto, ressalta a importância dos partidos incentivarem a participação feminina no âmbito político. “O PMDB é um partido machista. É só você olhar para o partido e ver que ele tem esse posicionamento”, disse em entrevista ao Huffington Post Brasil.

Na lista dos principais problemas enfrentados em seu governo, Teresa Surita cita a crise financeira e o grande número de refugiados venezuelanos. Dois grandes desafios! Mas, a prefeita aposta em um diálogo com o governo de Michel Temer para conseguir mais recursos, uma vez que afirma não ter mais onde cortar gastos na cidade. “Aí eu vou diminuir os programas sociais, não vou mais conseguir construir creches para aumentar as vagas… só se for esse tipo de corte”, diz.

Dá uma olhada nos principais trechos da entrevista de Teresa Surita ao Huffington Post Brasil. A prefeita abordou o papel da mulher na política brasileira, deu sua opinião sobre a reforma política e comentou de que forma a presença de refugiados venezuelanos tem influenciado no desenvolvimento de Boa Vista. Confira!

Boa Vista tem recebido um número expressivo de imigrantes, especialmente da Venezuela. Que medidas estão sendo adotadas de habitação, emprego, assistência jurídica e social?
TS:
Essa situação está grave. Eu procurei o governo federal. Houve uma reunião com o ministro Eliseu Padilha (Casa Civil), Alexandre de Moraes (Justiça), Raul Jungmann (Defesa), Defesa Federal, por causa da divisa que nós temos com Venezuela. Veio para cá uma comissão para avaliar essa realidade e ficou em seguida de marcar um outro encontro para ver como o governo federal pode ajudar (…) Isso é uma situação que está preocupando. Os números que nos chegam não batem. Já se fala em 50 mil venezuelanos ou mais de 30 mil porque é uma fronteira seca, então você não tem a condição de controlar com muito cuidado, como deveria. É uma fronteira que as pessoas podem entrar sem estar sendo legalizadas.

Na reforma política em discussão no Congresso, alguns deputados têm falado em tentar emplacar uma cota de mulheres para vagas no Legislativo e não só de candidaturas. A senhora apoia essa medida?
TS:
Não adianta ter a cota se você preenche apenas por preencher e porque está na Lei. Acho que é o que acontece hoje. Você exige x% de mulheres e essas mulheres vão ter suas candidaturas registradas, mas não vão fazer a campanha. Tanto que nesse ano 15 mil vereadoras não tiveram votos. A questão política com relação à mulher é ainda muito difícil de você trabalhar na questão de igualdade.

Acho que hoje a política não é atrativa para a mulher. Ela é um espaço machista. A mulher entra e é cobrada a ficar masculina, a ter gestos como hoje é visto na grande maioria dos homens. Você fala gritando, você se coloca de uma forma bruta. E eu acho que isso não tem feito com que as mulheres entrem na política, além da dificuldade de financiamento de campanha.

No Congresso é a mesma coisa. Os projetos que nos dão para relatar sempre têm o lado feminino. A economia, as grandes discussões sempre estão fechadas entre os homens. Existe um olhar que não é igual.

Imagem relacionada

Uma das primeiras imagens que o governo de Michel Temer passou foi ser composto por homens com experiência na política, sem mulheres em destaque. Isso simboliza que ainda há muitos avanços a serem feitos nessa área?
TS:
Isso chamou atenção porque a presidente Dilma tinha um número grande de mulheres. Mas isso é o que acontece naturalmente. Chamou atenção por causa da mudança que ocorreu e aí você acaba discutindo o que enxerga. Mas hoje se você pegar o Congresso Nacional tem 10% de representação (feminina). Para prefeita de capital só eu ganhei eleição, mas em 2012 também, então não mudou a realidade.

E não é fácil fazer política nos dias de hoje. Acho que estamos passando por uma transformação na política e a gente ainda não terminou essa etapa. Muitos políticos hoje evitam dizer que são políticos.

Os partidos fazem uma espécie de sabotagem financeira às candidatas femininas?
TS:
É. Acaba que as mulheres vêm mesmo mais para cumprir a cota. Você tem que ter muito voto, muito poder para você falar alguma coisa e aquilo ser mantido. É uma questão ainda que quando uma mulher ocupa um espaço sempre antes de qualquer coisa está que ela é uma mulher. Isso não só na política. O mundo é machista.

O que achou da entrevista? Concorda com as questões levantadas pela prefeita?

Beijos,
Selene Ferreira

3 sugestões de livros para quem quer inserir a política na vida das crianças

IN_charge_at_home.original

A situação política atual tem dividido opiniões. Não é à toa que o número de participantes cresce a cada manifestação. Os atos, porém, podem causar dúvidas e estranhamentos na cabecinha das crianças que ainda não sabem como se posicionar.

Debater o assunto em casa e explicar o motivo das manifestações é importante, mas antes de permitir que as crianças participem ativamente dessas atividades – o que pode ser estressante, confuso e até perigoso – uma boa maneira de introduzir a política na vida dos pequenos até através da literatura.

Muitos autores têm trabalhado com a incrível missão de educar as crianças politicamente a fim de darem a elas maior embasamento quanto às questões sociais e econômicas do país, mas sempre priorizando a importância do convívio em sociedade, exercendo a civilidade e a prática democrática.

Dá uma olhada nessas três sugestões abaixo. A leitura é fácil, o assunto é exposto de maneira leve e seus filhos vão adorar, tenho certeza!

1. Quem manda aqui? – Um livro de política para crianças | Larissa Ribeiro, André Rodrigues, Paula Desgualdo e Pedro Markun.

capa_qma_site2No dia a dia, as formas de organização política estão em toda parte, da diretora da escola ao dono do brinquedo. Este projeto fala sobre as diversas formas de controle e poder e é fruto de seis oficinas realizadas com crianças, em que foram compartilhadas, de uma maneira bem divertida, noções sobre modos de governar e tomar decisões.

2. Ensinando política a crianças e adultos |Rubem Alves

1144033-350x360-247683Como são feitas as eleições, o que é a democracia, como se forma o congresso e para que serve uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI): esses são alguns dos temas explicados a partir de analogias e citações históricas, que facilitam o entendimento, tanto de gente grande como dos pequenos.

3. Malala, A Menina que Queria Ir Para a Escola | Adriana Carranca

download

“Como jornalista, me interessa mais quem é a Malala antes de ser uma figura pública”, diz a autora. No primeiro livro-reportagem destinado ao público infantil, Adriana Carranca relata às crianças a história da adolescente paquistanesa Malala Yousafzai, baleada por membros do Talibã aos catorze anos por defender a educação feminina. Na obra, a repórter traz suas percepções sobre o vale do Swat, a história da região e a definição dos termos mais importantes para entender a vida desta menina tão corajosa. Uma opção bacana para ensinar aos baixinhos o que é ter uma ideologia e lutar por uma causa.

 Sugestões anotadas?

Beijos,
Selene Ferreira

*Fonte: Revista Claudia

4 mulheres que marcaram a história política do Brasil

voto

Quantas vezes já comentei aqui como é difícil que mulheres ocupem uma cadeira de destaque na política brasileira. Atualmente, possuímos 10% das vagas no Congresso Nacional e 12% nas câmaras dos municípios.

Mas, já foi muito pior. Basta pensar que há um tempo atrás nós não tínhamos nem o direito de votar, imagina só se candidatar a cargos políticos. O que pouca gente sabe é que foram mulheres quem abriram as portas para que a gente pudesse avançar nesse meio.

Que tal saber um pouco mais sobre elas? Separei quatro histórias incríveis para você ficar por dentro de mulheres que, lá atrás, já eram empoderadas e lutavam com unhas e dentes pelos nossos direitos.

Leolinda Daltro – criadora do primeiro partido feminista do Brasil 

leolinda

Foi em 1910 que Leolinda Daltro criou o primeiro partido político feminista do Brasil, o Partido Republicano Feminino. E, apesar de só pudermos participar oficialmente da vida política brasileira em 1932, a criação 22 anos antes foi uma maneira de pressionar o governo a incorporar o voto feminino, principalmente após ter tido seu pedido na justiça eleitoral para se alistar como eleitora negado. O motivo? Na Constituição vigente a época, as mulheres não eram vistas como cidadãs. Absurdo, né?

Baiana, Leolinda era professora e viajava o sertão brasileiro com um projeto que visava educar indígenas e ajuda-los a ter acessos a seus direitos. Na tentativa de concretizar seu plano de educação, ela foi alvo de vários boicotes sexistas, passando a ser chamada de “Mulher do Diabo”.

Para dar continuidade a seu plano, Leolinda inscreveu alguns de seus alunos como eleitores em uma eleição para deputados, fazendo deles os primeiros indígenas, na história do país, a ter direito ao voto.

Alzira Soriano – primeira mulher prefeita da América Latina

alzira

Sabia que, em 1927, o Rio Grande no Norte foi o primeiro estado brasileiro a incluir a mulher no direito ao voto? E foi no ano seguinte que seria eleita no estado a primeira mulher prefeita da América Latina, Alzira Soriano.

Com aproximadamente 60% dos votos, ela venceu as eleições pelo Partido Republicano para a prefeitura de Lages, no interior do RN. Apesar de só ter ficado no cargo por sete meses, ela foi responsável por coordenar um gabinete inteirinho formado por homens. Consegue imaginar? Após a Revolução de 1930, Alzira voltou à vida pública, sendo eleita vereadora por duas vezes consecutivas, no município de Jardim de Angicos, onde nasceu.

Bertha Lutz – propôs o direito à licença maternidade

capa

Se você já usufruiu da licença maternidade, agradeça à zoóloga Bertha Lutz. Uma das principais líderes na luta pelos direitos políticos das mulheres no país, ela foi quem mais trabalhou pela aprovação da legislação que deu às mulheres o direito de votar e serem votadas. Paulistana, depois de passar uma temporada estudando na Europa, Bertha voltou ao Brasil a fim de ocupar cargos no serviço público, onde também foi pioneira… e conseguiu!

Em 1936 assumiu o cargo de deputada na Câmara Federal, propondo medidas como a licença maternidade de três meses e redução da jornada de trabalho, até então de 13 horas por dia.

Carlota Pereira de Queirós – primeira deputada federal da história do Brasil

carlota

Primeira deputada federal da história do Brasil, Carlota Pereira de Queirós foi, em 1934, a única mulher a compor a Assembleia Nacional Constituinte. “Além de representante feminina, única nesta Assembleia, sou, como todos os que aqui se encontram, uma brasileira, integrada nos destinos do seu país e identificada para sempre com seus problemas”, disse em discurso.

Médica, pedagoga e escritora, Carlota fez parte da Comissão de Saúde e Educação, trabalhando pela alfabetização e assistência social na Constituinte, além de melhorar as condições de trabalho para as mulheres, como igualdade de salário.

E aí, o que achou? Viu como a presença da mulher na política traz resultados? Que tal fazer dessas mulheres sua fonte de inspiração para se engajar no meio político da sua cidade?

Bjs,
Selene Ferreira

*Fonte: Revista Cláudia
*Imagens: Reprodução/acervo O Globo

Pesquisa da USP revela atuação das mulheres na política

evento-em-sao-paulo-destaca-o-papel-da-mulher-no-mercado-digital-1160x700

Não é novidade que, quanto maior o número de mulheres na política, mais avançam projetos e demandas femininas. Sabia que hoje, o time feminino representa apenas 9% da Câmara dos Deputados? Pois é! Mulheres parlamentares ainda sofrem muito com a divisão sexual do trabalho político. Essa diferença aparece principalmente na relevância das pautas discutidas entre os políticos. Enquanto os homens participam de pautas como tributação, economia e divisão de poderes, mulheres são alocadas em temas como educação, saúde e cidadania.

O assunto foi uma das conclusões do mestrado defendido pela cientista política Beatriz Rodrigues Sanches no Departamento de Ciência Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, em janeiro de 2017 e publicada no jornal eletrônico da universidade.

Com o intuito de verificar se as deputadas em Brasília representam os interesses da população feminina brasileira a pesquisa contemplou um perfil biográfico das congressistas, o qual revelou que 80% delas tem nível superior completo – em contraste com a média da população brasileira de 12,5%, segundo dados do último censo do IBGE.

Outro resultado importante do estudo é que a filiação partidária pesa na atuação das deputadas. A maioria delas é de partidos ligados à esquerda e costuma atuar em pautas femininas, enquanto a minoria ligada a partidos de direita atuam principalmente em pautas conservadoras.

Segundo a reportagem publicada no jornal da USP, Beatriz Sanchez observou que existe consenso da bancada feminina em temas que envolvem violência contra a mulher, como na aprovação da Lei Maria da Penha. Nesses casos, os projetos de igualdade de gênero são mais efetivos e conseguem avançar. Entretanto, pautas mais radicais, como aborto por exemplo, dividem opiniões e dispersam o posicionamento entre as parlamentares.

A reportagem publicada pelo jornal da USP mostrou que a pesquisa verificou ainda a divisão sexual do trabalho político. Para a responsável pelo estudo, Beatriz Rodrigues Sanchez, trata-se de um reflexo da nossa sociedade, onde mulheres acabam sendo destinadas ao âmbito privado e homens ao espaço público. “Os partidos políticos acabam alocando as mulheres em comissões que são marginalizadas, e os homens nas posições mais importantes”, explica.

Para a pesquisadora, um número maior de mulheres na política pode ser o caminho para atenuar esse quadro e fazer avançar pautas que promovam a igualdade de gênero. Ela acredita também que mulheres podem influenciar no Legislativo, trazendo cada vez mais candidaturas feministas por lá. “Enquanto as mulheres não fizerem parte destes espaços, suas demandas serão negadas”, opina.

Quem sabe através desses dados as mulheres na política não passem a ver a importância que têm na promoção dos nossos direitos. É pra ficar de olho!

Beijos,
Selene Ferreira

*Fonte: jornal.usp.br/ Assessoria de Comunicação da FFLCH

Soninha Francine: a mulher por trás das polêmicas e dos muitos desafios políticos

Nascida e criada na Zona Norte de São Paulo, Sonia Francine Gaspar Marmo, 49 anos, é formada em cinema pela ECA-USP, mas ficou conhecida pelo grande público como a Soninha Francine, apresentadora do canal jovem MTV, onde começou como assistente de produção.

Como dá para se notar, a trajetória de Soninha sempre foi marcada por muito trabalho até se conquistar novos postos e realizações. Sendo assim, seu ingresso na política não poderia ser diferente.

Em 2004, disputou e venceu a eleição para vereadora de São Paulo e, desde então, vem realizando um trabalho sério e tentando melhorar, a cada dia, a situação de milhares de paulistas.

soninha

Esse ano, Soninha foi convidada pelo atual prefeito, João Dória, para assumir a Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social, convite esse aceito com muito carinho. Recém empossada, Soninha bateu um papo muito agradável com Selene Ferreira e nos contou um pouco mais sobre como é exercer um papel político importante em São Paulo, como é ser uma mulher envolvida na política e revelou suas metas para essa gestão.

Você confere o bate papo na íntegra:

Selene Ferreira: Quando olhamos para você, automaticamente somos remetidos à uma figura jovem, uma linguagem mais jovem. Mesmo o tempo tendo passado, você ainda consegue falar tanto com esse público. A que você atribui isso?

Soninha Francine: Eu tenho três filhas: a caçula com 19 anos, e as outras duas com 30 e 32, respectivamente. Quando falo isso, até me assusto (risos). Eu acredito que a galera mais jovem se sente mais próxima de mim pelo modo como eu me conduzo, o modo como eu não me conformo com algumas coisas, o modo como eu compro determinadas brigas… Eu não faço a menor questão de pensar em um discurso para o público jovem, como outros colegas fazem. Isso não convence ninguém. Em época de eleição é muito comum você ver o político falar “em nome da juventude”. É tão falso isso… Eu falo com as pessoas todas do mesmo jeito.

Selene Ferreira: De apresentadora à política. Quando te despertou o interesse por esse universo?

Soninha Francine: Acho que de uns anos para cá, muita gente começou a reconsiderar a política como uma forma bacana de engajamento, inclusive eu. Especialmente depois das manifestações de 2013. Para mim, não foi um interesse que começou só em 2004, quando fui eleita. Começou desde pequena, desde a minha casa, desde o colégio em que eu estudava, a igreja que eu frequentava, o grupo de teatro do qual eu fazia parte… Sempre amei política. E na MTV eu tive a oportunidade de “fazer política” sendo apresentadora. Eu falava de ativismo, engajamento, pautava os temas que pra mim eram importantes, como meio ambiente, sexualidade, cidadania…

soninha francine e Selene Ferreira

“A Câmara Municipal teve uma renovação considerável: de 5 mulheres eleitas, passamos para 11! Ninguém esperava uma mudança desse tamanho.”

Selene Ferreira: Você é uma mulher forte na política e tem um diferencial: não está inclusa nesse grande “clichê” de grupos femininos que querem se sentir representados única e exclusivamente por serem mulheres. Queria entender o que você pensa à esse respeito.

Soninha Francine: Clichê…você falou tudo! Eu fui criada feminista, então eu entendo que a mulher ainda é um tópico de debate, uma questão na sociedade. Mas NUNCA eu vou dizer ´Votem em mim porque eu sou mulher… Porque mulheres são melhores que os homens, mulheres têm mais sensibilidade, as mulheres são mais honestas’. Não, gente! Nós somos iguais… pessoas! Isso é o contrário do que eu acredito. A gente têm sim características diferentes, mas não significa que somos melhores líderes.

“Tem que ter mais mulher na política? Óbvio! Porque a política é um mundo desequilibradamente masculino. Não é uma representação minimamente razoável do conjunto da sociedade”

Selene Ferreira: Você tem uma ligação muito forte com as questões sociais. Trabalhar com esse público te toca mais?

Soninha Francine: Sinceramente? Esse é o sentido da vida. Fui criada por uma família católica, então no começo minha motivação era cristã. Foram ensinados a mim valores como amor, caridade, fraternidade, solidariedade. É assim que o mundo deve ser, todos se tratarem como irmãos, em pé de igualdade em relação ao pai. Na prática não estamos sendo iguais, então o que eu podia fazer para que de fato tenhamos uma vida de irmãos e iguais? Hoje eu sou budista e acredito que todo ser humano tem em si o poder do amor infinito. Tanto me incomodou essa loucura que é a vida hoje, que decidi fazer o que eu podia para que não fosse mais assim. Eu amo a política porque pra mim, racionalmente, é onde dá para fazer mais coisa por mais gente.

soninha selene

“Qual o sentido que existe em ver uma pessoa, que deseja ter a chance de dormir em um albergue, ter que ficar desde o meio-dia em uma fila?”

Selene Ferreira: Soninha, para finalizar, conte para nós: quais são seus planos para essa gestão como Secretária de Assistência e Desenvolvimento Social?

Soninha Francine: Eu vou atacar as regras sem sentido, a rigidez non-sense que acaba mantendo as pessoas na situação de fraqueza, de dependência, de sofrimento em que elas estão. Eu acho que essa vai ser a minha grande contribuição, com todos os desdobramentos práticos. Porque muitos dos problemas da assistência social são a falta de conexão com a realidade, a perda do propósito. É como se a saúde, por exemplo, se perdesse de tal jeito no tratamento que esquecesse que o objetivo é a cura. A política de assistência social tem uma estrutura que é para garantir que nenhuma pessoa fique impedida de desfrutar todos os seus direitos fundamentais, sociais, políticos e tal. Mas aí, talvez, nessa necessidade de se consolidar como política e não como boa  vontade, acabou criando protocolos, regras e conceitos que são rígidos demais. Então, agora precisa girar mais uma volta no ciclo para que ela passe a ser menos normatizada e regulamentada, e se torne mais orgânica e flexível.

ENTREVISTA
Marina Helou: a jovem que estreou na política com mais de 16 mil votos em SP!

marina8

Os eleitores de Marina Helou, 29 anos, candidata pela primeira vez à Câmara Municipal de São Paulo em 2016, talvez tenham ficado tão frustrados, quanto os de Hillary Clinton nos Estado Unidos, quando os resultados foram anunciados. Elas foram vitoriosas nas urnas pelo volume do voto popular, mas acabaram derrotadas pelos cálculos de coeficientes aplicados. Se o cálculo fosse da soma simples alcançada na apuração, ambas estariam eleitas. Mas essa frustração impingida também às candidatas, pode ter efeitos bem diferentes em suas decisões cá e lá, pois Hillary já é veterana na política e Marina está apenas começando… Mesmo sem alcançar sua vaga, ela promete estar cada vez mais envolvida nas discussões sobre gestão pública e reforma política, com a visão otimista e contagiante de uma jovem administradora, mulher e ativista, determinada a participar de forma ativa como cidadã de São Paulo e do Brasil, por um país mais justo e respeitador da diversidade e com ferramentas para detectar e impedir a rede de corrupção. E olha! O quanto ela tem a dizer sobre tudo isso… Essa entrevista exclusiva traz uma visão ampla do que se espera das mulheres empoderadas, que não podem fugir da ação política participativa, seja na hora de voltar, se candidatar, ou promover transformações no dia-a-dia, mesmo diante de pequenas derrotas.

marina11

Selene Ferreira: O que a fez voltar-se para o mundo político e ter o desejo de atuar como agente de mudanças no cenário da política paulistana?

Marina Helou : Sempre tive interesse em atuações de propósito e larga escala. Entendo que a gestão pública é um espaço com um potencial incrível de transformação real na vida das pessoas e durante a graduação no curso de Administração Pública isto ficou cada vez mais claro para mim. Após 2013 ficou muito claro que a minha geração havia se afastado da discussão pública, e que para a transformação que sonhávamos seria necessária uma nova forma de fazer política e de novos políticos. Refletindo sobre minha vida, formação e possibilidades entendi que poderia contribui com este processo me colocando candidata nas eleições de 2016 e construindo possibilidades de descomplicar a política aproximando as pessoas dos espaços de poder.

marina3

SF: Depois de uma campanha tão íntegra e direta, com conversas ao vivo pela internet com os possíveis eleitores, como absorveu a não eleição? Pretende continuar na política?

MH: Foi duro! Claro que nossa expectativa estava bem alta com todo o trabalho e consistência que criamos na campanha, sentíamos o retorno positivo e estávamos animados. A sensação foi de muita alegria por ver a concretização no número de votos que recebemos e de tristeza pois a Rede não atingiu o coeficiente eleitoral. Também por toda entrega que uma campanha exige a sensação do dia seguinte foi a de maior ressaca da vida!
Mas, passada a ressaca, temos um balanço muito positivo do processo. Tínhamos duas metas, a eleição e descomplicar a política aproximando as pessoas dos espaços de poder. Tenho certeza que nossa campanha trouxe o interesse para a política para muita gente mostrando uma nova forma de fazer. Por vezes um impacto muito maior do que havíamos planejado! Continuar na política? Pretendo sim!

marina4

SF: Você se candidatou pela REDE e alguns outros partidos elegeram vereadores com menos votos que você… A escolha de um partido hoje é mesmo fundamental no que tange valores, idealismo e compromissos?

MH: Esta é uma discussão muito contemporânea e importante de enfrentarmos no Brasil.
A REDE surgiu como um movimento incrível de colocar uma agenda de sustentabilidade e de conexão para a política. Com pessoas maravilhosas e muito inspiradoras. A decisão de virar partido trouxe toda a complexidade e disputas por poder que um partido tem por natureza e de alguma forma isto fez com que se perdesse bastante da força que o movimento tinha.
No Brasil temos mais de 30 partidos, que não representam com consistência mais de 30 conjuntos de valores, idealismo e compromisso. Isso não é saudável para a disputa politica e gera muitas negociatas de coalizão.

marina9
Hoje meu maior envolvimento está em discutir e me engajar na reforma política que esta em curso no Congresso e refletir sobre qual o melhor desenho que aumentaria a democracia e a possibilidade de participação. Partindo desta discussão teremos com certeza outras configurações partidárias. A escolha do partido, então, poderá voltar a ser mais ideológica do que pragmática, que é como o sistema força a escolha atual dos candidatos, para que não ocorra o que aconteceu comigo.

Por outro lado tenho observado diversos movimentos, surgindo e aspirando as eleições, com pautas comuns e com uma potência incrível. Vejo que nestes movimentos o partido importa pouco, sendo usados apenas como ferramentas necessárias para participar das eleições, mas o compromisso real é com o movimento. É possível observar este fenômeno em várias vertentes ideológicas como o MBL ou o Muitxs de BH. Talvez estes movimentos sejam os “partidos contemporâneos” que são mais fluidos e ideológicos, mais em rede e conectados e com menos disputas de poder. Acho que vem coisas muito interessantes por aí neste sentido.

marina2

SF: A seu ver, tivemos uma mudança significativa nas cadeiras da assembléia? Temos gente nova que possa dar esperança de mudanças reais na política local?

MH: A nova composição da Câmara dos Vereadores de São Paulo tem alguns pontos positivos. Mais do que dobramos a presença das mulheres. Ainda que continuemos como minoria absoluta foi um bom avanço! Também conseguimos eleger quadros novos e jovens na politica como Sãmia Bonfim, Fernando Holiday, Caio Miranda e Janaína Lima, o que para mim é muito importante.
Porém a taxa de renovação foi pequena e a grande composição da Câmara se manteve entre as mesmas pessoas e grupos de interesse que inclusive resultaram na eleição do Milton Leite, mais uma vez, como Presidente da Câmara.
Para que as mudanças reais aconteçam precisaremos estar muito próximos da politica e dos políticos, participando, contribuindo e cobrando!

marina0

SF: A representatividade da mulher na Câmara ainda é pequena. O que falta para mudar esse quadro definitivamente? A questão das cotas para mulheres nos partidos alterou de alguma forma a conscientização das mulheres eleitoras, ou das que têm potencial de candidatura?

MH: Sim. A representatividade da mulher na política brasileira é uma das mais baixas do mundo, perdendo inclusive para países do Oriente Médio. A cota das mulheres nas chapas dos partidos altera muito pouco este cenário. Já existe há muitos anos e não conseguimos avançar no tema pois as candidaturas femininas ainda são poucas e acabam sendo muitas vezes fracas e desorganizadas apenas para compor a chapa. Ainda temos em nosso imaginário a percepção de que os políticos são homens, brancos e mais velhos. Na hora de votar procuramos opções que se encaixem nesta imagem pois nos passa mais segurança.
Por isto termos mais mulheres eleitas nos ajudaria a mudar este esteriótipo e mais pessoas entenderiam este como um espaço nosso. Para que esta mudança realmente ocorra, além de falar cada vez mais no tema e apoiarmos boas candidatas, há alguns projetos mais afirmativos como a reserva de cota de cadeiras ou a concessão de dois votos por pessoa, um em mulher, outro em homem.

marina7

SF: Mudamos de um governo petista, para um tucano, com um personagem (prefeito) que se vendeu não como político, mas como empresário… Isso pode dar bons frutos?

MH: Na minha visão temos duas questões aqui. A primeira é se podemos ter bons frutos da gestão Dória em São Paulo e a segunda do impacto de vendermos a imagem de gestor e não político.
No primeiro caso acredito que é muito possível termos uma boa administração da prefeitura nos próximos anos pela gestão Dória. O ex-prefeito Haddad entregou a cidade com um contexto muito favorável: a dívida municipal controlada e o caixa em ordem, grandes obras como hospitais a serem inaugurados, os processos da administração pública organizados e otimizados. O Dória tem bom terreno para trabalhar e entregar melhorias reais na vida das pessoas em saúde, moradia, educação, transporte, segurança. E ele está muito empenhado em realizar uma boa administração, o que é bom para São Paulo.
No entanto, acho que perdemos bastante em uma evolução profunda que Haddad vinha fazendo que é trabalhar o Direito à Cidade e a retomada dos espaços públicos pelo paulistano em suas diversas possibilidades, gerando maior integração e convivência entre as realidades tão distintas que temos aqui. Acredito que a gestão Dória não acredita nesta abordagem e está empenhada em uma comunicação intensa de bastante visibilidade e marketing apoiada em uma narrativa de “nós contra eles”, que em minha visão é muito triste e atrasada para as possibilidades contemporâneas que temos no cenário das grandes metrópoles do mundo.
Quanto ao discurso de ser gestor e não politico, acredito que os resultados podem ser muito perversos. Vivemos em um momento que os estabilishment político é muito antigo e nocivo. São as mesmas pessoas de sempre que se entendem donas da gestão pública, participam de grandes escândalos de corrupção e abuso do poder, mas não saem de lá. O sentimento geral é de raiva e indignação. Mas quando extrapolamos este sentimento, em relação a ciclano ou beltrano e o generalizamos para toda a política, negamos também a política por si só como o maior desafio e a maior possibilidade de transformação que temos. Negar isso abre espaço para caminhos muito perigosos.

marina-helou-foto

SF: Qual é o papel das mulheres nas mudanças necessárias no modo de gerir as nossas instituições publicas, cuidar da nossa cidade, cobrar dos governantes?

MH: Gosto muito de lembrar que grandes revoluções como a Revolução Francesa e a Revolução Russa iniciaram com movimentos das mulheres, como marchas e revoltas. Tenho certeza que a força feminina tem um papel vital na transformação da sociedade e não podemos deixar de dar esta contribuição. A partir de um olhar de necessidade específica e também de uma outra forma de entender e pensar soluções temos uma força gigante para contribuir e para isto precisamos estar nos espaços. Temos de nos colocar para servir as instituições públicas, dar visibilidade e apoio aos diversos movimentos de ocupação e pertencimento que já existem na cidade, nos manifestarmos e estarmos presente no dia a dia dos nossos governantes e principalmente cobrar.
A força das mulheres nestes temas é gigante e precisa ser honrada.

marina1

SF: Como você vê seu futuro político?

Faço esta reflexão de enxergar muito propósito na arena pública e de sentir a responsabilidade e o privilégio de poder colocar toda experiência e formação incríveis que recebi a serviço da gestão pública e da política. Entendo que minha geração se afastou muito deste espaço e o cenário que vemos aí hoje com os políticos que aí estão e não nos representam são reflexos da nossa ausência.
Entendo que é muito importante pensar um futuro politico. Estar nesta disputa e crescer consistentemente para influenciar e construir a sociedade que desejo. Esta certeza eu tenho. Agora os próximos passos exatamente estão em construção… hehehe.. estão sempre em constante construção.

marina5

SF: Como enxerga a atual política nacional?

MH: Um desastre. É muito ruim para o Brasil como Nação não ter um governo eleito e ter passado por um processo tão traumático quanto o impeachment. Entendo que a Chapa Dilma-Temer deveria ter sido prontamente julgada pelo TSE após um pleito tão inverídico e insustentável como o de 2014.
Porém isso não aconteceu. A Dilma sofreu o impeachment já com o país sem nenhuma governabilidade e o Temer deveria então ter ocupado este espaço com respeito e dedicação em resolver a crise econômica e a realizar uma transição consistente com o programa pelo qual foi eleito como vice.
No entanto não é isso que vemos acontecer. É um governo que lidera por meio de medidas provisórias, sem diálogo e debate com a sociedade, com um time sem diversidade que sintetiza o que de mais antigo e ruim temos na política mexendo em temas muito sensíveis para todos. Não tem como dar certo.
Vejo a Lava Jato como um grande fator de instabilidade que agora precisa ser preservado com muito cuidado para não sofrer com a morte do Ministro Teori.
No fundo penso que o que acompanhamos hoje na politica nacional é o fim de um ciclo. O ciclo da redemocratização, da Constituição de 88, de Tancredo até Temer, está chegando no fim. Com certeza foi um ciclo importantíssimo e estamos melhor do que a 30 anos em todos os aspectos. Nos trouxe até aqui. Porém para seguirmos precisamos repactuar uma visão de país e de Brasil entre as partes. Precisamos de uma visão mais de longo prazo e pensar quais são os combinados que irão garantir o próximo ciclo, o futuro.

marinadez

SF: Que recado vc deixaria para as mulheres desacreditadas da política e dos políticos?

MH: Que elas tem razão. Os políticos que estão ai hoje, e por consequência a politica, não merecem créditos e não nos animam para a construção e transformação necessária. Mas então, que levantem e olhem em um espelho. Sim a resposta de quem pode mudar isto é essa mesma. Você.
Todas as mulheres tem e terão um papel fundamental em uma transformação com impacto positivo na sociedade então meu recado é: Lutem, Lutem pelo que é importante para vocês!

original

SF: Você se utilizou muito das redes sociais para se comunicar com os eleitores. Que outros papéis importantes estas redes podem desenvolver no futuro político e cívico do país?

MH: Acredito muito no papel das redes sociais e da tecnologia nas transformações da sociedade. O poder das redes, de aproximar as pessoas e dar voz a todos, é um poder político. Pode aproximar as pessoas dos espaços de poder, encaminhar demandas e criar canais de diálogo.
Para muito além das campanhas acredito que as redes podem contribuir muito para mandatos com maior diálogo, participação, proximidade e transparência. É importante que haja bastante cobrança para não virar mais um canal de propaganda e marketing politico como estamos vendo por aí, mas tenho muita confiança que são ferramentas importantes que auxiliam na construção de uma democracia mais direta e participativa, como este blog.

marinadoze

SF: Criança que tem conhecimento político e vontade de fazer a diferença… Como começar?

MH: Sim! Na minha visão temos que começar por aí mesmo. Reconhecendo os agentes políticos nas crianças. E parando para escutá-las. Para além da importância da formação delas como agentes de reflexão e construção políticos, acredito na contribuição imediata que elas podem dar na confecção de politicas públicas.
Acompanhei algumas candidaturas com propostas muito interessantes neste sentido como a do Pedro Markun da Rede e da Maira Pinheiro do PT que tinham plataformas e metodologia de inserção das crianças no mundo político que valem a pena conhecer como o “Jogo da Politica”.
Na nossa proposta de mandato teríamos alguns momentos voltado para a participação da criação e metodologias para incluí-las na construção de propostas de soluções para diversos temas como educação, espaço público e saúde.

*lembramos sempre que damos plena liberdade de resposta a nossas entrevistadas e que a opinião delas, sem reservas, nem censura, é sempre respeitada, independente da nossa posição editorial.

Mara Gabrilli: entrevista com esta deputada para lá de especial!

30971749981_03907534e0_o

Mara Gabrilli é deputada federal pelo segundo mandato e uma voz feminina forte que se fez ser ouvida no Congresso, através de muito trabalho e uma dedicação rara de se ver entre os velhos políticos brasileiros. Incansável, ela luta por um país mais justo para os deficientes e todas as minorias esquecidas, ou seja um país bom para se viver, para qualquer brasileiro, independente de suas necessidades especiais. Sua história de vida comovente, contada no livro “Depois daquele dia” de Milly Lacombe, foi marcada por um trágico acidente em 1994, que a deixou sem movimentos do pescoço para baixo. Mas a tragédia virou passado e motivo para seguir mais forte.

mara-triatlo

Cadeirante há mais de 20 anos, Mara ainda se esforça para recuperar seus movimentos (ela já consegue movimentar parcialmente os braços) na mesma medida em que briga, diariamente, para sensibilizar a sociedade pela inclusão de todo e qualquer cidadão. É através de pequenas vitórias que se vencem os maiores desafios. E ela já provou, tanto na política, como na vida, que ela não se intimida diante dos obstáculos. É com essa mulher extraordinária que conversamos hoje.

28854431543_bff924403b_o

Selene Ferreira – Mara, quando foi a primeira vez que você pensou em entrar na política? O que a encorajou e que entraves encontrou desde que se decidiu?

Mara Gabrilli – Depois de um tempo que havia sofrido o acidente de carro que me deixou tetra, resolvi fundar uma ONG que apoiasse atletas com deficiência e angariasse pesquisas com células-tronco. Foi então que fundei Projeto Próximo Passo, que hoje é o braço direito do Instituto Mara Gabrilli.
Nesta época, quando fundei A ONG, eu não pensava em política. Quando comecei a batalhar no PPP, vi a dificuldade de várias pessoas com deficiência que viviam à margem de direitos: não tinham acesso a transporte, não podiam trabalhar, não tinham condições de comprar um tênis para treinar. Naquele tempo, mesmo não envolvida na política, eu já buscava mudanças e acabei me tornando conhecida.
Minha mãe, que acompanhava toda essa mobilização, passou a insistir para que eu me candidatasse a um cargo público para ampliar meu trabalho e assim poder ajudar mais pessoas – de forma concreta e direcionada. Foi a partir desse cenário, sem apoio e conhecimento político, que resolvi candidar-me a vereadora de São Paulo. A surpresa foi muito agradável, pois em primeira eleição já obtive votos que me garantiram a suplência.
Nesse ínterim, acabei sendo convidada pelo então prefeito, José Serra, para comandar a primeira Secretaria da Pessoa com Deficiência do país. Dois anos depois, assumi a cadeira que vagou na Câmara Municipal de São Paulo e passei a legislar pelos paulistanos com deficiência. Na bagagem, pouca experiência, mas na mente e coração, muita vontade de transformar a cidade e a vida das pessoas.

30542970276_69425d3db0_o

SF – Quando veio a privação dos movimentos você sentiu na pele a realidade dos portadores de deficiência e empunhou a bandeira de brigar pela acessibilidade. Antes do acidente alguma vez você, como publicitária já tinha parado para pensar nesse problema?

MG – A diversidade humana sempre me instigou. Muito antes de ser uma pessoa com deficiência, eu já me interessava pelo assunto. Na infância, estudei com um menino que era amputado de uma perna. E ele era o primeiro da turma na corrida de velocidade. A convivência com o João foi muito positiva para mim. Mais tarde, quando fui morar fora do Brasil, trabalhei como cuidadora de um idoso e em um acampamento para pessoas com deficiência. Nesta época também cuidei de uma jovem tetraplégica. E quando estudava psicologia, estagiei em uma escola de alunos com deficiência intelectual. Foi um grande aprendizado.
Certa vez, quando já estava formada em publicidade e propaganda, fui atrás da deputada Célia Leão, também cadeirante, para que me ajudasse a conseguir um ônibus adaptado para levar um público com deficiência a um evento que eu estava trabalhando.
Enfim, a convivência com as diferenças sempre fez parte da minha vida. E de forma muito natural. O que mudou é que ao entrar na vida púbica, eu passei a trabalhar no âmbito político por essas pessoas. Ou seja, minha energia passou a ser canalizada de outra maneira, mas ela sempre existiu.

30542969816_a6bb49c488_o

SF – Você também é psicóloga. Isso a ajudou emocionalmente quando perdeu os movimentos? É incrível a sua força de vontade em relação à sua missão e a você própria sempre firme na fisioterapia nestes 21 anos como cadeirante. Qual é o segredo pra se manter tão firme?

MG – A formação em psicologia foi muito importante para mim. Depois da tetraplegia meu primeiro emprego foi em uma clínica. Eu atendia diversos pacientes e muitos sequer davam conta da minha deficiência.
Foi um momento muito importante na minha vida, pois foi ali que o foco saiu de mim e eu pude me doar ao outro. Ouvir e entender outras realidades te proporciona outras perspectivas e referenciais para viver. Mas acredito que o mais importante em todo esse processo de aceitação foi nunca ter condicionado a minha felicidade à volta dos movimentos. Eu não deixei de buscar bem estar e felicidade por não andar, ao mesmo tempo em que nunca desisti.

28920686473_991bc8882a_k

SF – Você conquistou no seu caminho político como secretária, vereadora e deputada não só a admiração dos eleitores, como o respeito dos colegas… Logo que chegou sentiu-se de alguma forma discriminada? Você acha que os políticos do congresso podiam imaginar o quão participativa e guerreira você seria inclusive em outras questões que extrapolam a qualidade de vida aos portadores de deficiência?

MG – O que ocorreu no inicio da minha trajetória era a completa falta de informação sobre o tema “pessoa com deficiência”. E talvez seja dessa ignorância (de falta de saber mesmo) que esse e outros preconceitos se engendrem. Na época em que comecei a trabalhar por inclusão o que reinava era a visão assistencialista. E essa foi a primeira barreira a ser derrubada. Claro que falta muita coisa, mas graças a um trabalho pautado em grande parte na informação, muitos gestores já entendem que a pessoa com deficiência é um agente ativo na sociedade e não alguém que deva ser tutelado pelo Estado.
Hoje, saber que sou respeitada pelo meu trabalho me traz uma sensação maravilhosa. Quando vejo também que as pessoas com deficiência estão sendo incluídas em várias esferas da sociedade me fico muito feliz. A sociedade está mudando o olhar para o assunto. Está mais atenta para o universo. Recebo alunos em meu gabinete interessados em saber das leis, dos direitos das pessoas com deficiência. A concepção sobre o assunto está mudando. E isso é muito bom.

30224912086_edf1894643_o

SF – Você faz parte da minoria feminina na Câmara Federal…. Ao seu ver, por quê a mulher que é maioria na população não elege mais mulheres para representa-la e mudar essa desproporção no Legislativo?

MG – Hoje essa representatividade da mulher na politica ainda é pequena. Mas a questão não é só de espaço, mas também de interesse. Atualmente, já existe a reserva mínima de 30% das vagas de candidatos mulheres para cada partido, mas ainda não trouxemos essa porcentagem para dentro dos parlamentos. A bancada feminina do Congresso Nacional tem 10,77% das cadeiras – 13 senadoras (16,05% das 81) e 51 deputadas federais (9,94% das 513).
Mesmo com avanços, os partidos políticos ainda continuam redutos masculinos e a política ainda se mostra como um ‘jogo sujo’. Acredito que isso desanime muitas mulheres a se filiarem a um partido. Contudo, já existe um número grande de lideranças femininas, sobretudo nas periferias, que lutam por inclusão de pessoas com deficiência, melhoria de escolas, entre outras demandas de suas comunidades.

mara-gabrilli-deputados

SF – O que é mais difícil hoje de encarar no convívio com políticos no Congresso?

MG – Acho que são duas coisas. A primeira são as falas mentirosas no plenário, que nem o próprio deputado que está discursando acredita; são aqueles mantras utilizados por alguns deputados, discursos clichês que já caíram em desuso. Chego a sair do plenário de tanto desgosto. E outra coisa é aquele deputado que está lá para resolver os problemas pessoais dele e não os da população.

 

SF – A cassação (e prisão) do Cunha trouxeram que impacto ao meio parlamentar?

MG – A prisão do Cunha trouxe um aviso de que ninguém está acima da lei, não importa quem seja. Se fez coisa errada, se praticou corrupção, tem que ser preso, tem que ir pra cadeia

28558576924_040e4eb2b3_o

SF – Como você se divide entre a vida pessoal e agenda política?

MG – Uma coisa muito importante na minha vida pessoal são os exercícios físicos diários que realizado para manter meu corpo em movimento e com energia para aguentar a agenda política. A maior parte desses exercícios são com aparelhos à base de eletroestimulação. Nesse sentido, vou tentando encaixar os movimentos antes, durante e depois do expediente.

mara-gabrilli-foto-george-gianni-psdb

SF –  Você acredita que uma maior participação das mulheres na política pode ajudar na esperança de um país mais humanizado e menos corrompido pelos interesses pessoais de representantes mal escolhidos pelo povo?

MG – Acredito que não só mulheres, mas todas as diferenças. Quanto mais diversidade você tem, mais você representa uma população. Ainda temos um Congresso muito formatado e engessado que não representa toda a sociedade e sua gama de diferenças e necessidades. E isso vai muito além da questão de gêneros. Embora tivéssemos uma presidente mulher, e com várias ministras, ela nunca chamou as mulheres para conversar.

 

Fotos: Alexssandro Loyola e Google FreeShare

Colômbia Urgente

Palestra com Sylvia Colombo

Neste encontro, a enviada especial à Colômbia, Sylvia Colombo, aponta os cenários possíveis após a rejeição por uma pequena margem do acordo de paz entre o governo colombiano e as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), que encerraria uma guerra que já dura 52 anos, fez mais de 250 mil mortos e desabrigou mais de 8 milhões de pessoas. Os quatro anos de esforços do presidente Juan Manuel Santos pelo fim dos conflitos agora têm um futuro incerto à medida que se aproxima o fim do cessar-fogo, que dura até o final deste ano.

Duração: 1 encontro
Dia: Quinta-Feira (03/11)
Horário: das 20h às 22h
Valor: R$ 170,00